Uma viagem que deveria ser apenas mais uma entre tantas realizadas pelas estradas da América do Sul se transformou em uma experiência de resistência para o caminhoneiro Ribamar Laudares, de 33 anos. Morador de Chapecó, ele permaneceu durante 11 dias retido em meio à neve e ao frio intenso na região da Cordilheira dos Andes, na fronteira entre Chile e Argentina.
Natural de Minas Gerais e com cerca de dez anos de experiência ao volante, Ribamar conta que já enfrentou diferentes situações nas estradas, mas considera a passagem pelo Passo de Pino Hachado umas das experiências mais difíceis de sua trajetória profissional.
A região foi atingida por uma intensa sequência de nevascas entre julho e agosto, provocando bloqueio de estradas e passagens de fronteira e deixando dezenas de caminhoneiros retidos. Em alguns pontos, a neve acumulada chegou a quase um metro de altura.
Durante o período de espera, Ribamar registrou imagens que mostram a dimensão das condições enfrentadas pelos motoristas. As cenas mostram caminhões cercados pela neve, enquanto a pista e a paisagem permanecem cobertas por uma espessa camada branca.
Segundo o caminhoneiro, a neve na região não é incomum, mas a intensidade registrada durante a viagem surpreendeu até mesmo os profissionais acostumados com as condições da Cordilheira.
“Quando eu cheguei lá já estava nevando. Fiquei sete dias esperando parar de nevar e a nevasca foi só aumentando. A previsão era de mais dez dias de neve”, relatou ao Oeste Mais.
Com uma das passagens fechadas pelas condições climáticas, os caminhoneiros precisaram buscar alternativas para atravessar a Cordilheira dos Andes. Ribamar percorreu aproximadamente 1,8 mil quilômetros pela Patagônia até chegar ao Passo de Pino Hachado, mas encontrou novamente um cenário dominado pela neve.
A pista congelada, o acúmulo de neve e a baixa visibilidade aumentavam os riscos de acidentes e panes mecânicas. Para quem conduzia veículos pesados, cada trecho exigia atenção redobrada.
Apesar das dificuldades, Ribamar afirma que manteve a calma e confiou no caminhão Volvo que conduzia. Segundo ele, uma pane em condições tão severas poderia representar um problema grave, principalmente diante da dificuldade de deslocamento e da longa espera.
Para manter a cabine aquecida durante os períodos de frio mais intenso, o motor precisava ser ligado periodicamente. O caminhão era acionado aproximadamente a cada cinco horas e permanecia funcionando por cerca de 50 minutos. O tanque de combustível também foi mantido cheio como medida de segurança.
Se a neve e o frio faziam parte da rotina, outro problema passou a preocupar Ribamar durante os dias de espera: a alimentação.
Antes da viagem, o caminhoneiro havia se preparado com mantimentos, mas os 11 dias de retenção fizeram os estoques diminuírem rapidamente. Sem estabelecimentos próximos para comprar comida, as opções eram limitadas.
“Alimentos estavam quase zero. Fizemos compras antes de iniciar a viagem, mas dessa vez quase fiquei sem. Não tinha local para comprar, apenas um food truck que vendia hot dog e café”.
Mesmo diante da escassez, o caminhoneiro afirma que procurou manter a tranquilidade e seguir os cuidados necessários para atravessar a situação.
Outra dificuldade enfrentada durante a espera foi o acesso ao banho quente no lado chileno da fronteira. De acordo com Ribamar, o sistema utilizado no local é diferente do encontrado normalmente no Brasil. Em vez de chuveiros elétricos individuais, existe um reservatório com aproximadamente 100 litros de água aquecida. O problema é que a estrutura precisa atender um grande número de motoristas. Segundo o caminhoneiro, havia apenas um chuveiro disponível para mais de 300 profissionais.
Para tomar banho quente, muitos motoristas precisavam escolher horários de menor movimento, principalmente durante a madrugada.
Além das condições climáticas, uma questão burocrática contribuiu para prolongar a permanência de Ribamar na região. Quando surgiu uma oportunidade de atravessar a fronteira, faltava um documento relacionado à carga transportada. Com isso, o caminhoneiro perdeu a janela de passagem. Pouco depois, a nevasca se intensificou novamente, tornando a travessia ainda mais difícil.
“Eu perdi todas as oportunidades que tinha de passar e depois começou a nevar. E aí, diante disso, fiquei 11 dias lá”, explicou.
As imagens feitas por Ribamar impressionam pela quantidade de neve que cobriu a região. Caminhões aparecem estacionados em meio à paisagem completamente branca, enquanto a precipitação reduz a visibilidade e transforma a estrada em um trecho de alto risco.
Para os caminhoneiros que cruzam a América do Sul, situações envolvendo neve, gelo e mudanças repentinas no clima fazem parte dos desafios das rotas internacionais. Em condições extremas, é necessário reduzir a velocidade, manter distância dos demais veículos e acompanhar as orientações das autoridades responsáveis pelas rodovias e pelos postos de fronteira.
O acúmulo de neve e a formação de gelo podem dificultar o controle dos veículos, especialmente no caso de caminhões carregados.
Mesmo depois de conseguir deixar a região, Ribamar relata que as filas de caminhões continuavam extensas nos dois lados da fronteira entre Chile e Argentina.
Para quem observa de longe, a neve pode representar apenas uma paisagem impressionante. Para os profissionais que dependem das estradas da Cordilheira dos Andes para trabalhar, porém, o cenário significa frio extremo, riscos, longas esperas e a necessidade de experiência para lidar com situações imprevisíveis.
A experiência vivida por Ribamar reforça uma realidade conhecida pelos caminhoneiros que percorrem rotas internacionais: planejamento, preparação e experiência são fundamentais, mas, diante da força da natureza, nem sempre são suficientes para evitar uma longa espera.





